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TEMPO LIVRE NA CIDADE

Bem vindo ao tempo e à ideia de sua fragmentação, na qual há um determinado tempo livre para fazermos o que quisermos. E se esse tempo livre fosse o tempo inteiro? E se você descobrisse que o tempo é todo seu, para fazer o que quiser e quando quiser? Essa liberdade a princípio assusta qualquer ser humano que é ensinado desde criança a sempre ter tarefas e compromissos.

Esta autora acabou de se formar, está desempregada e redescobrindo o próprio tempo, com uma liberdade estranha e com bordas desconhecidas.

O tema de um seminário veio a calhar, enfim: O Tempo Livre na Cidade (X Seminário Internacional da Escola da Cidade, faculdade de arquitetura e urbanismo em São Paulo)

No Seminário da Escola da Cidade em parceria com o Sesc sobre o Tempo Livre na Cidade, em março de 2015, surgiram reflexões e esses conceitos se misturaram. Tempo. Livre. Cidade. Saindo dessa mistura uma proposta de uma série de textos relacionados a esse tema para o Arquipélago.

Deparou-se então com a necessidade de falar o que é esse tal de “tempo livre” para entender onde foi seu surgimento para refletir futuramente: onde as pessoas o investem dentro da cidade; quais os programas e espaços oferecidos dentro das cidades cujo uso é aberto a todos, espaços que geram uma subsociedade igualitária; quando elas passaram a ter o direito de poder participar da cidade – elas tem o direito de participar das cidades?; Há projetos arquitetônicos que promovem a discussão desses temas?; Ultimamente, o tão precioso tempo livre é desperdiçado no transporte público, quais alternativas são propostas para reverter esse cenário?

Esse seminário deu muito pano pra manga…

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O TEMPO E O TEMPO LIVRE

O homem adquire a consciência da passagem do tempo através da observação do mundo, através de sua visão, da sequência de acontecimentos. Porém, a sua percepção é diferente de sua medição. Primeiro notaram o dia e a noite, as trevas e a dádiva. Depois perceberam as movimentações das estrelas, e finalmente os movimentos inerentes à terra. Assim naceram as estações, a contagem dos dias num ano, os calendários e a descoberta da necessidade e mutabilidade de fevereiro. Formas políticas e religiosas de orientação e de ordem. Cada sociedade criu seus meses, cada um à sua época. Há tantos nomes variados de meses, tantas motivações para calendários que nos faz questionar essa necessidade de denominação, definição e determinação de tudo dentro do ser humano.

E, mesmo depois de tanto tempo e com todas as medidas possíveis, ainda existiam as reflexões sobre o tempo e sua relatividade. Ocuparam os braços do povo, grosso modo, mantiveram-no longe da reflexão por tempo indeterminado, trabalhando demais.

Século XIX. Surgem as primeiras leis trabalhistas. E, enfim, o conceito de tempo livre. E agora, o que fazer com esse tempo livre? Você pode ir ao teatro e entrar pela porta da 3ª ordem. Você pode ficar em sua casa ou cortiço. Se você sabe ler, talvez haja alguns textos muito interessantes na França…

Como interpretar esse “tempo livre”, uma sugestão da pré existência de algum tempo não livre? A partir da fragmentação do tempo entre o trabalho e as poucas horas restantes destinadas a fazer nada, o descanso entre uma jornada e outra, criou-se a noção de tempo livre. E, pouco tempo depois, surgiram ideias baseadas nessa nova e enorme invenção do homem, e sua importancia nasce para a saúde dos trabalhadores.

Se você, trabalhador do século XIX, mora em Nova York, provavelmente virá a descobrir um enorme parque no meio da ilha de Manhattan. Se você está na França, talvez você venha a participar com seu tempo livre de algumas revoluções bem interessantes para os próximos anos da humanidade, se você é um escravo, nesse mesmo século você descobrirá o doce e o amargor de ter tempo livre.

Alguns 100 anos mais tarde, após anos de guerras pelo mundo (que não se acabam nunca), no Brasil o quadro político, econômico e social muda e começam a surgir reflexões mais profundas e concretas do que fazer com o tempo livre dos trabalhadores. Agora com todas as raízes capitalistas bem fincadas na eterna terra do Pau Brasil, surgem aos poucos programas em parceria com empresários para a funcionalidade do investimento do tempo livre do trabalhador, como cursos profissionalizantes e lazer desenvolvimentista. Assistências ao trabalhador. Uma via de mão dupla, você doa o seu tempo para aprender a sobre manuseio de máquinas e ofícios e ao mesmo tempo consegue manusear essas máquinas novas para os empresários… Funciona muito bem. Todos ficam felizes.

Hoje, na locomoção alucinadamente rápida das informações, o tempo se tornou mais raro, e há quem sinta no ar uma leve, tênue, sutil contrarreforma de grupos de pessoas falando sobre desacelerar, com ideias controversas ao capitalismo – da funcionalidade total de tudo -, que há de ter um tempo para o nada. Há quem veja que a velocidade alcançada por nossas vidas e rotinas se tornou tão insustentável que falar sobre um tempo livre parece até insanidade. Há um tempo livre na sua vida? Um tempo em que você pode fazer qualquer coisa, sem necessariamente ter sentido, objetivo, ou funcionalidade?

Ou todo o nosso tempo de vida deve ser gasto com objetivos, metas e planos bem traçados?

Por Sabrina Vieira
Arquiteta – SP

 


 

Quer complementar ou criticar este texto? Envie seu artigo para o Arquipélago.

 


Ouça o podcast #ZERO sobre arquitetura hostil.

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