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Os primeiros cursos de Arquitetura de Curitiba (os primeiros do Paraná) foram criados sob o signo da “prancheta”. Acreditava-se que quanto mais horas fossem gastas na prancheta, melhor seria o projeto. Com graus diversos de fé, os arquitetos de Curitiba comungavam a superstição dos “pranchetistas”.

Pessoas práticas, os pranchetistas desprezavam formulações intelectuais, continuando aquele “empobrecimento da cultura arquitetônica brasileira” que se iniciou, segundo Miguel Pereira, na década de 1950 (A cultura arquitetônica brasileira. Artigo originalmente publicado Revista Arquitetura e Urbanismo, n.06, 1986, pp.42-45. Republicado In. PEREIRA, Miguel. Arquitetura: cultura, formação, prática e política profissional. São Paulo: PINI, 2005. p.22). Nenhum dos pranchetistas de Curitiba conseguia escrever a respeito de arquitetura. Em geral desconheciam as possibilidades da teoria da arquitetura. Confiavam mais em desenhos do que em palavras faladas ou escritas. Alguns tornaram-se professores universitários de destaque indo de prancheta em prancheta, a assessorar estudantes, mas não conseguiam falar em público e liam qualquer texto com dificuldade, mexendo os lábios num silêncio constrangido. Havia pranchetistas respeitados que afirmavam que “leituras atrapalham a criatividade”. Aqueles profissionais conseguiam pensar em várias propostas, mas não conseguiam propor um pensamento em que os vários argumentos se confirmassem em reciprocidade.

 

FÁBRICA DA MATTE LEÃO – 1948

 

A propaganda, durante décadas, de que as “leituras atrapalham a criatividade”, esterilizaram a condição essencial para a elaboração de textos consistentes (quem não lê e analisa textos críticos não conseguem redigir textos críticos). O resultado mais evidente foi a inexistência de livros a respeito dos profissionais fundadores da arquitetura moderna em Curitiba, cruelmente vitimados pelos seus próprios pressupostos. O resultado foi a quase completa incapacidade para apresentar e defender pontos de vistas que convencessem pessoas que estivessem para além da corporação. O resultado foram mestres e doutores que encerraram suas formações acadêmicas no próprio título (ou até antes), pois recusam-se a realizar qualquer nova pesquisa ou, pior, escondem os trabalhos que os titularam.

 

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PROJETO DA IURD QUE OCUPARÁ O LUGAR DO PRÉDIO DA MATTE LEÃO

 

No caso do Matte Leão, o resultado aí está! Alguns arquitetos parecem convencidos da importância da sede da Matte Leão para a cidade de Curitiba. Porém, os mesmos arquitetos sequer tentaram redigir textos ou apresentar pontos de vistas amplos que convencessem a cidade da importância da sede da Matte Leão. Às vésperas da destruição, fica-se um jogo de empurra no qual alguns e outros se perguntam: “Mas ninguém faz nada?”

O fazer alguma coisa, no caso, significaria pesquisar a Arquitetura fabril; significaria publicar textos e livros; significaria um lento trabalho de convencimento. Na ausência de tudo isso (ausência iniciada quando algum professor afirmou que “leituras atrapalham a criatividade”), apela-se para o desespero de ocasião, para repentinos abaixo-assinados, para protestos inócuos e outras milongas mais.

 

 

Por Irã Taborda Dudeque – Doutor em Arquitetura e Urbanismo USP

 


 

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