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Um quarto minúsculo, paredes sem cor, a luz entrando por um retângulo pequeno na parede e um rádio ligado em algum lugar. Nesse ambiente claustrofóbico a história começa e acaba. Claustrofobia é uma sensação recorrente ao longo de todo o episódio White Christmas, o especial de Natal, por assim dizer, da série Black Mirror.

A série retrata de forma perturbadora a maneira como a tecnologia domina o nosso dia-a-dia. Com o formato de antologia, cada episódio é independente e versa sobre um aspecto distinto, sempre com o pano de fundo tecnológico numa realidade distópica, indo ao profundo das nossas relações sociais permeadas por tecnologias eletrônicas, levantando questões éticas, existenciais e políticas. Não há um único episódio de Black Mirror em que o criador Charlie Brooker não nos cause um impacto aterrador: a série no que tange o comportamento humano é plenamente verossímil. Somos nós ali, com nossos espelhos negros, como este para o qual você está olhando agora. Pensar esse aspecto da modernidade nos leva uma confissão profunda de nosso espelho virtual, nossa cópia visual em um mundo imaterial que acessamos através de imagens e significados projetados. Como diz um dos personagens no início do episódio: Talvez seja o preço do progresso. Está cuidando bem do seu Facebook?

 


 

 

WHITE CHRISTMAS

Todas as histórias se conectam pelos dois personagens apresentados no início: Mathew Trent (Jon Hamm)  e Joe Potter (Rafe Spall), mas aqui vou me deter ao segundo segmento desenvolvido. O da mulher com o Cookie. A descrição desse trecho serve como construção do conceito tecnológico da história e não afeta diretamente o desenrolar da trama, portanto é um conteúdo seguro para quem não viu.

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Um quarto de um branco mínimo onde Greta (Oona Chaplin) aguarda por um procedimento cirúrgico. Após ter recebido os sedativos a consciência de Greta permanece ativa, percebendo tudo o que acontece a sua volta. A voz está completamente desorientada enquanto tem a sensação de ser arrancada de seu corpo. De fato está.

Após perceber-se retirada de seu próprio corpo, Greta surge como uma voz vinda de um aparelho chamado Cookie. Matt aparece como uma espécie de psicólogo que é contratado para ajudar no processo de descorporificação. “Apenas uma mudança de estado”, uma frase do início da história que ressoa aqui. E temos um um dos muitos aspectos profundos do episódio.

 

Well, that’s what you are. A copy of you.

 

2Este segmento é o mais curto mas carrega a parte simbólica mais significativa. É aqui que nos deparamos com a representação da mente como uma máquina auto suficiente e responsável por si mesma, a transmutação de toda a nossa pretensa complexidade em um único ponto azul sintético e minúsculo: temos a síntese de toda a superficialidade da ilusão humana.

O aparato biotecnológico é uma inteligência artificial em  branco implantada no cérebro do cliente para absorver todo o conteúdo e aprender o funcionamento da sua mente. Uma cópia da própria personalidade. Após ser extraído, essa cópia consciente é adestrada e treinada para servir e executar ordens do seu corpo original. Afinal quem sabe cuidar melhor de nós do que nós mesmos?

 

 

CORPORIFICAÇÃO

Greta, a cópia, é apenas uma voz dentro de um ovo eletrônico. Para apressar a compreensão da situação, Matt dá a ela um corpo exatamente igual ao da original. A adaptação é muito mais rápida quando aquela consciência se entende corporificada. O ambiente é um branco infinito.

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“O corpo é o hábito primordial que condiciona todos os outros hábitos; ele é a virtualidade, a possibilidade de todas as atualidades. É o meio pelo qual acesso o mundo e os outros.”

Maria José Cantista

É interessante ver como, de alguma forma, definimos nossa identidade através das embalagens em que estamos inseridos. Num primeiro momento precisamos ter um corpo para exercer o nosso ser e nossa potência. Esse corpo, no entanto, continua sem identidade alguma se estiver imerso em vazio. As paredes pelas quais estamos cercados o tempo todo nos moldam como seres corporificados. Se não estamos “dentro” de algo, estamos sempre dentro de um conjunto de símbolos que nos localizam no espaço e na existência. Mesmo em meio a natureza desabitada sabemos reconhecer os símbolos, sabemos ler o céu, o ruído dos insetos e o calor. O projeto de nosso espaço é sempre artificial, e quando não é um objeto construído artificialmente, é um conjunto de signos com significados projetados por alguém, da mesma forma.

 

SIMULACROS

O papel de Matt na verdade é adestrar a inteligência artificial a aceitar sua condição e se tornar funcional. Ele é uma espécie de suporte técnico e torturador profissional. Greta se recusa a assumir um papel de escravidão. Matt faz com que o tempo avance em duas semanas enquanto ele mastiga uma torrada. Quando questionada novamente após esse período se está pronta para sua função de controlar a casa de sua mente original, ela ainda se recusa. Novamente Matt faz o tempo avançar. Greta não dorme, não interage, não vê nada além de branco por seis meses. O isolamento total e a tortura de não ter uma identidade a fazem implorar de joelhos por qualquer tipo de interação e aceitar seu papel de escrava. Greta agora tinha uma função e estava finalmente satisfeita e no controle.

 

3

As construções e os objetos são extensões do que somos. Quando vemos Greta sentada no centro de controle de sua casa material entendemos que a projeção de sua existência depende do controle que ela exerce sobre os objetos tidos como reais, mesmo que ela esteja num infinito vazio branco. Os botões desse centro de controle são apenas simbólicos, uma representação de uma intenção já codificada. “Qual botão devo apertar?”, ela pergunta. “Não importa. Você já sabe o que vai fazer.”

“Reconheço a própria consciência como um projeto do mundo, destinado a um mundo que não abraça nem possui, mas para o qual é perpetuamente dirigido”.”

Edmund Husserl

Greta, como uma representação da consciência humana, precisa supor que está no comando de algo externo, algo que ela apenas vê a distância, de um ponto onde não existe nada real, apenas a grande ficção da existência.

 

Por Maicon Garcia
PUCPR


 

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One response to “Black Mirror – sobre corporalidade”

  1. Sao apenas 7 episodios com cerca de uma hora de duracao, mas o suficiente pra deixar qualquer mente em estado vegetativo. Criando cenarios distopicos, seja no presente ou em algum futuro proximo, Black Mirror passa a explorar os males da tecnologia de uma maneira muito inteligente e absurda de tao poderosa.

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