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O centenário de Lina Bo Bardi no ano passado deu nova abertura para discussão de seus projetos, principalmente os edifícios públicos e seus pensamentos, os quais voltavam-se para o espaço livre convivido pelo público, como são exemplos clássicos o MASP, o MAM-BA e a Fábrica da Pompeia, seus projetos desenhados humildemente para dar papel de destaque à apropriação do espaço pelo usuário e aos elementos pré existentes ao seu projeto.

Um dos destaques dentre as obras de Lina está a Fábrica da Pompeia – SESC Pompeia, em São Paulo, o edifício foi tombado pelo IPHAN em abril de 2015. Desde a primeira visita à Fábrica, Lina priorizou não só as estruturas em concreto armado, mas as interações sociais que já ocorriam no espaço quando ali o SESC planejava uma outra unidade. A preservação não só de uma memória construtiva, mas de uma memória social daquele lugar, dando força para sua apropriação total em forma hoje de SESC, espaço de cultura, educação e esporte.

 

Um Tipo de Leitura Sensorial (de projeto)

A entrada na Fábrica Pompeia pela primeira vez foi a noite, suas luzes baixas faziam saltar ao olhos a textura da pavimentação em paralelepípedo da rua principal e aos tijolos dos galpões da fábrica que a ladeiam num certo ritmo até que ao final encontre um espaço aberto com solar em deck de madeira. Muitas pessoas andavam sob um chuvisco fraco de inverno que fazia o seixo rolado das valetas laterais dessa rua principal brilhar sob a iluminação baixa.

Uma memória é muito viva: um teatro de bonecos acontecendo naquela noite, falavam alto num diálogo com dicção e conteúdo engraçado, logo à entrada. O público sentado às mesas do lado de fora da lanchonete – também bem perto da entrada – assistiam e davam muitas risadas.

O primeiro galpão à direita, ao entrar lembro de ter sentido frio, e de ter me surpreendido como ali parecia mais iluminado, uma luz mais branca. Na época ainda não entendia porque tudo me parecia ser tão cinza, colorido apenas pelo verde escuro do estofado dos sofás e os vermelhos das junções das estruturas de madeira. Fiquei muito tempo encantada com o riacho que entrecorta parte do galpão e as exposições, naquela noite eram sobre os anos mais psicodélicos da música. Algumas visitas e anos de arquitetura mais tarde percebi como esse era um espaço mutável, apesar das características fortes que remontam as viagens e os conhecimentos da arquiteta, ainda carrega a sutileza de um projeto que reflete a humildade de Lina perante a arquitetura preexistente.

Naquela mesma visita descobri o foyer do teatro e o muxarabi, presente ao fundo desse espaço, com função de portão para acesso à Rua Barão do Bananal e permitir ventilação e iluminação do espaço. Além disso, mostra como esse espaço foi composto pela arquiteta e não é original da fábrica, apesar da continuidade no ritmo dos galpões.

Por fim, o deck do solar e a magnânima descoberta dos dois edifícios ligados por passarelas, à esquerda, no final do trajeto da rua principal, cujo partido arquitetônico foi a dificuldade imposta pela impossibilidade de construir sobre um trecho daquele terreno, onde se faz presente até hoje, no subterrâneo, um riacho.

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Projetando Liberdade

Antes mesmo de descobrir o que era essa tal de arquitetura, uma juvenil discussão interna da importância de caminhar por um espaço livre, antes mesmo de entender o que tornava aquele lugar especial arquitetônica e intelectualmente, o que me fez sentir bem ali não foi a estrutura singular ou a racionalidade da distribuição dos galpões, foi poder andar tranquilamente, estar do lado de fora de uma construção, num lugar harmônico com escala agradável, um lugar feito para pessoas.

O que faz dos projetos dessa querida arquiteta ítalo-brasileira tão icônicos é sua delicadeza ao enquadrar o espaço livre, às vezes, propositalmente deixando a arquitetura num segundo plano, e, ainda que seja esta seja genial e audaciosa, faz da liberdade do homem o seu maior programa de projeto.

 

Por Sabrina Vieira
Arquiteta – SP

 


 

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